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O Criador e as Criaturas
Carlos Henrique Iotti já conseguiu aquela façanha de ter uma de suas criaturas - o Radicci, é claro - mais conhecida do que ele mesmo. (Responda rápido: quem inventou o Sherlock Holmes? Viu? Gaguejou). Muda aí o cenário, os costumes e a língua, o Radicci é o Obelix da colônia italiana no Brasil. Isto é, um emblema que só não é mais famoso porque afinal os italianos de Caxias do Sul não são (ainda) tão importantes como os franceses.
Mas o Iotti não tem só o Radicci (um deitado, que só tira as mãos pra pegar o garrafão de vinho ou a espingarda pra caçar passarinho). Tem a Genoveva (mulher do Radicci), que é o maior libelo contra o machismo estúpido do gringo italiano. Tem o Guilhermino, em choque permanente (às vezes com razão, outras sem, mas sempre meio atônito) com a grossura e o espírito pantagruélico do pai. E mais os coadjuvantes dessa família "exemplar": o Nono, um avô que adora andar de "motorciclo", a tia encanzinada que mora em Bento... Enfim, um elenco de botar inveja. Se o Iotti estivesse em Nova Iorque e publicando em inglês já seria milionário. Mas acho que ele é um pouco como eu: mais um vale um gosto (leia-se: o vinho de Caxias) do que dois cents.
De quebra, O Iotti criou a dupla Frederico & Felini - um moleque desalmado e seu gato vivendo um vida de rato, à mercê de uma força insensível e cruel como a do destino. As situações criadas a partir dessa relação estão entre as melhores coisas já imaginadas sobre a maldade (inocente?) da criança. Além de serem uma fábula sobre a impotência humana (não estou falando daquela que se cura com amendoim torrado). O Felini está pronto para entrar na galeria dos gatões do desenho animado. O Frajola e o Garfield que se cuidem.
Outros personagens de Iotti comparecem menos na mídia, mas nem por isso são menos
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impagáveis. Tem o Adão Hussein (o sobrenome não é gratuito), com seus rompantes iraquianos nos campos de Vacaria. Mas um de meus pratos prediletos, finíssimo, é a turma da Geração Astral, em que pontifica o Vladimir, "o último dos comunistas", misto de rípi e de Che Guevara, tendo a toda hora recaídas no espírito burguês com a conseqüente fase de autocrítica. Um apelo ao Iotti: venham mais tiras da Geração Astral. O momento me parece propício (ou será que está quente demais?) pra ela voltar à cena. O último dos comunistas não morreu. Continua circulando disfarçado pelos botecos, uma hora com um "verde", outra hora com um "sem" alguma coisa.
Não sei se o humor mais requintado do Iotti não está na mais estranha "dupla de criação" já inventada: ele, Deus, e ele, Diabo, num desafio permanente para ver quem é mais criativo, sem se importarem muito com as criaturas que manipulam (será que o Iotti é um filósofo existencialista?). As histórias dessa dupla já andaram dando até protestos de leitores contra um jornal que as publicava. Pensando bem, não é para menos. Mas se for muito complicado ir para os jornais, a dupla pode muito bem vir para a Internet, onde cada um pega a quantidade e o tipo de veneno que quiser, sem perigo de ofender as crianças grandes (ou seria grandes crianças?) que têm medo de rir do transcendente.
Depois desse quase catálogo das criaturas postas no mundo pelo Iotti, peço aos navegantes um momento de atenção ao seu criador: comprem as suas revistas, adquiram as suas tiras. Ele ainda não chegou ao seu primeiro milhão de dólares. Nem ao primeiro milhão de reais, o que também é bom (pelo menos enquanto a inflação está amarrada na casinha do cachorro). Como diria o Radicci: "o que é que estão aí esperando, porco zio?"
José Clemente Pozenato
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Conheci o Radicci lá pelas bandas de Nova Bolonha (lá onde inventaram o espagueti à nova bolonhesa), na linha uma, bem na divisa de Bento Gonçalves com Jaguari.
Nesse tempo ele tinha chegado da Itália e era tão pobre que só tinha um pé de tamanco. Pra ir à missa no domingo, tinha um par de chinelos de dedo (com a tira presa por um preguinho).
Mas sempre foi um gringo trabalhador que passava o dia com a mão no cabo da enxada. Sesteava com a mão na enxada, comia com a mão na enxada, jogava bocha com a mão
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na enxada e até fazia aquilo com a mão na enxada embora isso causasse uma certa confusão na Genoveva.
O Radicci adora um banho e agora que inventaram o tal computador (que ele chama de cérebro eletrônico) só toma banho virtual, via internética, bem de acordo com a modernosidade.
É por isso que se diz lá na colônia: o Radicci é muito bom para um rapaz solteiro pois evita pegar doença e economiza dinheiro!
Santiago
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